Sobre Inês.. e sobre sentimentos!

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Inês Martins
Escritora, poeta, artista, pintora, contadora de piada, conversadeira, extrovertida, estranha, negra de alma, de corpo, de espírito, de descendência, de nariz, de cabelo enrolado, de pai. Honesta, viva, alegre, alegre, alegre, alegre, alegre...
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Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Novamente partidas.



Os olhos se fecharam brandamente. Sabia que aquele era um indício de partida. Sabia que ele iria embora, por motivos que poderiam, talvez, ser os que ele disse, ou por culpa sua. Já estava habituada àquelas partidas.

Pelos olhos passaram areias. O coração sentiu as mesmas dores, embora essa dor parecesse mais concreta. Era agora uma mulher, ainda amarela de medo, assustada com a própria solidão.

Era agora uma mulher vazia, com um amor que aparece repentinamente e voa por si mesmo. Era agora uma mulher, sem pudores, sem receios nem certeza alguma, exceto pela lágrima que caiu, antevendo as outras que viriam.

Certamente aquele homem faria muita falta: pela sua docilidade, por sua simplicidade em ver a vida, por seu jeito de dizer boa noite, por sua risada gostosa. Não o conheceu profundamente, não deu tempo. Mas ela soube, em seu íntimo, que eram potencialmente compatíveis. Ela soube que aquele homem traria uma felicidade branda, daquelas que se tem quando se faz uma família, e filhos, e se constrói sonhos.

Tudo em vão. Talvez ele reaparecesse, mas seria complicado apagar a marca de incerteza que pairava pela cabeça daquela velha mulher, cansada do sofrimento. Embora no rosto aparentasse apenas 25 anos, em alma parecia milenar. Alma cansada, de mulher sofrida, já vinda de muitas estradas tortas. Sempre finais sozinha.


Os olhos se fecharam brandamente, como quem sente toda a dor do mundo. Areias passearam por sua extensão, antevendo as outras lágrimas que viriam depois dessa, que teimosamente caiu, mesmo sem sua permissão. Aquele homem esteve há dois passos do oceano. Nada mais a fazer sobre isso...

Sobressaltos, da menina amarela.


A menina amarela perambulou em torno dos sonhos que já não tinha. Percebeu que estava de cabeça baixa, de olhos tristes, de semblante angustiado. A idade não favorecia mais rompantes, mas esta era sua característica.

Sonhava com países distantes, com romances maravilhosos, com versos e poemas recitados depois de uma noite de amor. Talvez seja culpa dos romances do Século XIX, das novelas, das músicas que ouvia na adolescência.

Já não pensava mais na família que idealizou na infância. Dificuldades com os seus. Não queria mais sentir saudades, nem mágoas, nem tristezas; apenas uma marca distante de que existiram, um dia, em sua memória.

Observou sua estrada. Muitos passos desconexos, muitos pedaços faltando, de um quebra-cabeças sem sentido. Sentiu o coração amargurado. Sentiu o coração agressivo, como que já calejado por acontecimentos diversos.

A menina amarela pressentiu sua solidão por muito tempo. Solidão no meio de gente, constatou. Mesmo no meio de gente amiga.

Já não via o espelho com tranqüilidade. Também não via as ruas como um lugar seguro para sua sobriedade. Deveria estar em casa, de portas e janelas fechadas, para não ter que abrir os olhos para o mundo.

Fechou os olhos, deixou uma lágrima indevida cair. Já não era mais a mesma adolescente de antes. Mantinha o mesmo drama – o medo antigo do espelho, da balança, da própria imagem.
Nem a solidão se repetiu. Tentou sorver um gole de 1000litros de vinho. Não havia vinho, nem álcool, nem nada que aplacasse a nova dor tão antigamente conhecida – solidão.

Relembrou os últimos fatos que lhe povoaram a mente. Relembrou os últimos acontecimentos da vida. Percebeu que a vida e a morte se limitam numa linha muito tênue, frágil demais, pra ser analisada por humanos.

Sentiu pena de si. Sentiu pena da sua solidão antiga, talvez escolha própria. Sentiu pena da sua covardia, e da sua ousadia. Repensou vida e morte, e seu desejo antigo reapareceu. Mas não queria mais findar a vida: queria viver. Queria ser amada, conhecer o mundo, conhecer a si mesma. Queria muitas coisas que sabia impossíveis de serem realizadas.

Outras lágrimas previsíveis caíram, diante de tantas constatações. O mundo girou por sua cabeça frágil. O mundo pareceu enorme e ao mesmo tempo muito pequeno.

Domingo, Outubro 18, 2009

Cris.


Um pedaço de mundo...
E você aqui.
Um pedaço de paz,
Nada mais.
Um verso,
Uma música baixa.
Você, numa lembrança intermitente.

Saudade de mim.
Saudade de você,
No abraço que senti.
Dentro do seu silêncio.

Dicotomias


Observo o espaço. Há muito medo em meus olhos, muito medo de coisas cotidianas, como atravessar a rua depois das 8 da noite. Há muito espaço entre dois corpos, dois corpos que se amam. Há uma luta pela geografia.

Meu medo se reflete em vários ângulos. Alguns percebem as mãos suadas, outros os dedos trêmulos; tanto faz. Do meu lado, dois corpos se angustiam. Dentro de mim, eu sou um dos corpos. Não uma mulher, apenas um corpo de partes assimetricamente divididas. Coração e mente se contradizem. Eu sinto a sua falta viva, tal qual o medo refletido em meus olhos. É noite.

Fecho os olhos. Ouço a sua risada nitidamente. Vejo o teu sorriso, como se a sua boca e a minha estivessem a centímetros de distância. Suspiro. São apenas alguns momentos inconscientes, talvez os mais sensatos que já pude ter ultimamente.

Vejo filmes, livros, rostos estampados em milhares de folhas. Vejo cartas que escrevi pra você em silêncio. Vejo tiros nas ruas, minha sensibilidade contrastada com a rudez cotidiana. Minha sensibilidade contra a agressividade diária dos telejornais repletos de sangue; assim como o meu amor, lágrimas e a geografia.

Abraço-te no escuro. Abraço-te, mesmo com braços que ainda não te alcançam. Sei que é questão de tempo. Sei que o tempo é impetuoso e talvez rápido demais... Ou lento, ainda, em algumas circunstâncias. Sei que tempo e espaço são apenas pontos de vista.

Imagino que o medo acaba nos seus braços. Imagino que o medo pode ser trocado pela insegurança, ou pela incerteza; mas eu sou uma mulher. As mulheres sempre se questionam sobre tudo. Neste instante somos muito mais que namorados. Somos inimigos. Somos futuros amantes. Somos dois sonhos que se refletem em outra pessoa que está aquém e além das nossas possibilidades, ao mesmo tempo. Somos medo, tensão, amor, completude.

Pergunto-me se a fé, o amor e a dúvida são racionais. Pergunto-me se os mesmos são perenes. Sei que todos são estados de espírito. A fé, porque garante que as coisas aconteçam, ao menos na mente daqueles que acreditam; o amor, porque move montanhas; a dúvida, porque motiva a angústia e o medo. O medo também dura.

A noite também dura, e com sua escuridão avassala os olhos. Mas depois dela o sol nasce, lindo. Eu escolho o nascer da luz, os seus olhos claros, o seu sorriso nos meus ouvidos e os beijos que posso e não posso ter. Escolho a fé, que me proporciona realidades em que acredito. Escolho abrir mão das dúvidas que guardo sobre mim mesma, pra acreditar no amor.

Olho no relógio. Olho para a rua, que me apavora tanto, pro espaço vazio na cama, que me incomoda com tanta calamidade. Sinto a sua quietude dormindo ao meu lado, agraciado pela fé, pela certeza futura. Já atravesso a rua com mais calma. Foi só uma impressão. Durou segundos...

Sábado, Outubro 10, 2009

Coração flutuante


Às vezes não sabemos dimensionar as dores que um coração suporta. Muitas vezes um coração é doce, outras vezes amargurece. O coração sofre, ama, apaixona-se, arrefece. É uma bomba-relógio, prestes a explodir, em insanidades e maluquices. O coração é sempre dono de si. Astuto, dá sempre ordens. O coração flutua. Embora dono do homem, não sabe por onde pisar. Tem saltos, sobressaltos, quebra o salto, muitas vezes em tombos maiores que as pernas - bambas e apaixonadas.

O coração diz, com batidas aceleradas, confusas, flutuantes, curvas. O coração anseia, com mãos geladas, com sangue velocíssimo circulando pelas veias. O coração grita, em seus silêncios absurdos. E tantas vezes perdemos a voz. E tantas vezes nos brotam lágrimas, de tristeza, de susto, de emoções reprimidas ou liberadas inconscientemente.

O coração é a alma do corpo. Ele sabe até onde vão as dores e felicidades. Ele sabe, mesmo quando fingimos não saber. O coração é a fonte e ao mesmo tempo é regado pelo amor.

O amor é um motivo. Um motivo que nos faz levantar cedo com bom humor. Um motivo que transborda o coração de sangue feliz. Um motivo de ser gentil, de ser doce com alguém.

Muitas vezes, porém, o motivo de ser doce nos leva a ser fel. E nesse instante, o coração flutuante é indeciso, duvidoso, incerto. O coração que nega sua origem sangra. Sabe que não é seu feitio sofrer, odiar, contrariar-se.

O coração é feito pra amar. O coração é amor.

Domingo, Agosto 23, 2009

Desaparições de Roberto



Era uma quinta-feira. Roberto reaparecera de suas desaparições costumeiras. Aquilo já tornara-se um hábito, embora não me convencesse de que aquelas atitudes fossem constantes. Roberto tinha o poder de me encantar com poucas palavras e atutudes simples. Sua alma me tocava, embora internamente soubesse que havia muitas peças sem encaixe num quebra-cabeças enorme.

Nesta noite especial, de uma semana sem maior importância, apareceu doce, redizendo que me amava. A palavra amor tem o dom de amaciar coração desavisado. Meu coração era até avisado, mas esquecido. Esquecia-se dos sumiços, das lágrimas de madrugada, da insegurança, da saudade; em nome da palavra AMOR. Amor, palavra que rima, incontestavelmente, com a palavra dor.

Beijamo-nos docemente. Contou-me dos motivos do sumiço recente ( que durou, aproximadamente uns 3 meses), dos problemas particulares, do amor que sentiu, de seus vazios. Conversamos longas horas pelo telefone noutro dia. Falamos de uma vida, confidenciamos sonhos, pensamos em nos casar. Desligamos. OUtra desaparição. Um mês.

Trabalho, trabalho, trabalho. Não me atendeu nenhum dos telefonemas, nem disse onde esteve. Apenas desapareceu e reapareceu. Era assim que se fazia nosso relacionamento: entre a certeza incontestável de seus sumiços e a trágica angústia de aguardar sua volta. Viajaria. Retorno em uma semana, quinze dias no máximo.

Sei que antes de um mês é contabilizar dores que não serão curadas. Não, ele não levou um tiro. Não, não foi assaltado, nem sequestrado. Sou a única a questionar por resgate. Sou a única desavisada de seu paradeiro. A única ( ou quem sabe tenho sócias?) a se enraivecer por conta da asperez de sua falta de delicadeza em pelo menos ligar, dizer se está vivo, se precisa de alguma coisa e a única ainda capaz de amolecer o peito ao ouvir as palavras mágicas que ele diz tão bem com aquele abraço de me enterrar em seu peito.

Só que dessa vez, como em tantas outras, decidi não esperar. Embora faça parte da minha rebeldia antiga, durante seu tempo foragido, estou decididamente disposta a substituí-lo, por alquém que seja livre, mas que me dê seu paradeiro. Talvez seja só um par de chifres, mas numa hora dessas... Há tantas quintas-feiras, semanas normais, moços sozinhos.... Ninguém sabe a capacidade doce dos outros em dizer palavras mágicas...

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

Divagações de um coração partido


As folhas fecharam-se. Enfim, mais um daqueles romances de final feliz fora devorado pelos meus olhos, também sequiosos pela visão de uma cena de final feliz. Senti uma necessidade imensa de me apaixonar. O coração parecia vazio, desesperançoso, frio.


Uma saudade quase inevitável de braços me rondando a cintura, de olhos me olhando de soslaio. Uma vontade imensa de me sentir completa, protegida, abraçada. Vontade de preencher o peito com uma rotina de abraços e beijos e carinho, infindáveis.


O amor é bicho instruído, já dizia sabiamente o poeta Drummond. E de tão instruído sabe o próprio potencial. Sabe que duas criaturas precisam se unir, em dadas circunstâncias da vida, pra se sentirem completas.


Chega um momento da vida em que os vazios são os mesmos, porém saná-los é outra coisa. A vida não se restringe àpenas festas, barulho, bocas desconhecidas. A vida passa a ser uma busca pelo que é seu. Sua casa, suas conquistas pessoais, marido, filhos.


Senti uma ponta de inveja das vezes que quis casar. Uma ponta enorme de saudade dos preparativos, da vontade de cuidar de alguém por um tempo indeterminado que, costuma-se estimar, é o resto da vida. É como se a casa fosse vazia, surreal.


O que me assombra não é o sentimento de solidão, que me assalta em várias madrugadas desprevenidas. O que me assombra é saber que eu sou uma pessoa em constante mudança, neste momento divagando em dúvidas sobre si mesma.


Sinto-me frágil, pequena, indefesa. Qualquer música me emociona. Não sinto saudades do passado, nem daqueles que julguei ingenuamente, fossem meus amores. Na verdade lembro muito vagamente de alguns deles, com mais carinho de outros dois e só. Os homens que me tocaram profundamente foram os mesmos que me deixaram marcas mais profundas ainda: umas de mágoa, outras de tristeza.


Hora de desvencilhar dos traumas do passado. Hora de aceitar as chegadas e partidas de outros amores, que certamente me farão chagas talvez maiores ainda. Mas me trarão novas sensações; talvez esta tranquilidade que tanto busco. O cruzar de olhos num salão lotado, o suspiro profundo depois de um "eu te amo" dito com atitudes singelas a significativas.


Não são só as mulheres seres sentimentais e apaixonados. Não são só as mulheres que precisam do aconchegar em um colo macio, praparado com um cafuné numa noite advinda de um dia cansativo. Precisamos de sensações de paz, tranquilidade, respeito, cumplicidade, fé. Precisamos todos de sentimentos maduros, não maculados por ciúmes injustificáveis, traições desnecessárias; ausência em espírito. Preciso de companheirismo. Alguém que não se importe em me ver com os cabelos desgovernados pela manhã, depois de uma noite de amor.


Amor, amor, amor. Somos seres profundissimamente ligados ao amor, ao medo de senti-lo, ao desejo sequioso de dominá-lo. Mas já dizia Drummond...

Sexta-feira, Agosto 07, 2009

Realidade Amarela


Pintamos de amarelo a nossa realidade. Medo. Medo de enfrentar vontades reais que pareciam utópicas. Medo de constatar que a vida é uma estrada íngreme e tortuosa. Medo de enfrentar o espelho, o telefone celular sem chamada de retorno alguma, o emprego que não era aquele que eu queria.

Era uma tarde duvidosa, cheia de anseios adolescentemente pré-moldados. Era uma tarde como as outras, porém intrinsecamente diferente. Os olhos caminhavam para uma cegueira inevitável, como aquelas que se adquire ao ver tudo que é de uma luz enorme. O mito da caverna. Os mitos existenciais.

Concluí que a realidade não é tão assustadora vista assim: de tão perto. A realidade não é senão, uma parte da vivência, que pode ser dolorida, suave, angelical, assustadora. Neste exaro momento parecia amarela. Vivamente amarelada por um medo de tudo o que parece definitivamente maior do que o nosso próprio controle.

Estivemos abraçados nesse dia. Foram segundos pequenos, definitivamente. Nossa amarelice se juntou às batidas de corações ingênuos, fracos. Ainda assim corações.

Amar é como saltar de pára-quedas. Pode ser uma experiência incrível, inenarrável. Mas pode ser, inevitavelmente, uma experiência dolorosa. Naquele momento meu coração titubeou entre pular de pára-quedas ou se manter tranqüilo, no terreno intransponível da minha solidão. Naquele momento senti um calor percorrer as mãos, o corpo, o coração, que treme diante de tudo que parece desestabilizante. Um medo amarelo.

Senti a grandeza do salto, dos vôos, do abrir dos olhos. A grandeza da sua presença amiga, mesmo que distante. A grandeza da minha solidão, solidificada por mim mesma há muitos anos. São tantos motivos... O espelho, os pensamentos excêntricos, as experiências dolorosas... Muitas coisas sempre conspiram pra falta de coragem.

Parece que o peito não sabe definir, a longo prazo, quais as melhores conseqüências. Normalmente nos acomodamos. É mais fácil sentar num sofá macio e ver a vida passar, de relance. É mais fácil silenciar uma dor que parece intransponível de dentro quando o outro parece imune aos nossos chamados. É mais cômodo deixar a lágrima. Lágrimas amarelas.

Talvez poucas pessoas compreendam que a agressividade é um pedido de socorro. A reclusão é um pedido de socorro, a distância é uma forma (estúpida, que seja), de querer estar perto. Quando uma pessoa parece desistir da própria vida são muitos os sinais que manda, como pedidos de socorro, mas os detalhes... Os outros também são amarelos. Socorrer e pedir socorro são dois jogos perigosos.

Fechei novamente as páginas daquele livro. Fechei as portas da casa, dos meus olhos. “Algumas vezes a gente ganha, noutras a gente perde”, pensei. Fechei os olhos e dormi. As coisas estaticamente guardadas, como numa fotografia velha que poucos olham.