Os olhos se fecharam brandamente. Sabia que aquele era um indício de partida. Sabia que ele iria embora, por motivos que poderiam, talvez, ser os que ele disse, ou por culpa sua. Já estava habituada àquelas partidas.
Pelos olhos passaram areias. O coração sentiu as mesmas dores, embora essa dor parecesse mais concreta. Era agora uma mulher, ainda amarela de medo, assustada com a própria solidão.
Era agora uma mulher vazia, com um amor que aparece repentinamente e voa por si mesmo. Era agora uma mulher, sem pudores, sem receios nem certeza alguma, exceto pela lágrima que caiu, antevendo as outras que viriam.
Certamente aquele homem faria muita falta: pela sua docilidade, por sua simplicidade em ver a vida, por seu jeito de dizer boa noite, por sua risada gostosa. Não o conheceu profundamente, não deu tempo. Mas ela soube, em seu íntimo, que eram potencialmente compatíveis. Ela soube que aquele homem traria uma felicidade branda, daquelas que se tem quando se faz uma família, e filhos, e se constrói sonhos.
Tudo em vão. Talvez ele reaparecesse, mas seria complicado apagar a marca de incerteza que pairava pela cabeça daquela velha mulher, cansada do sofrimento. Embora no rosto aparentasse apenas 25 anos, em alma parecia milenar. Alma cansada, de mulher sofrida, já vinda de muitas estradas tortas. Sempre finais sozinha.
Os olhos se fecharam brandamente, como quem sente toda a dor do mundo. Areias passearam por sua extensão, antevendo as outras lágrimas que viriam depois dessa, que teimosamente caiu, mesmo sem sua permissão. Aquele homem esteve há dois passos do oceano. Nada mais a fazer sobre isso...








